Taata Anselmo é enterrado com homenagens no cemitério Bosque da Paz

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O som dos cânticos entoados nas línguas kimbundo e kikongo ecoaram por volta das 10h desta segunda-feira (29), no cemitério Bosque da Paz, durante o cortejo de despedida de taata diá inquice  (pai de santo) Anselmo José da Gama, o líder espiritual do terreiro Mokambo, de tradição banto. Pelo ritual do candomblé, o enterro do sacerdote marcou o início de um novo ciclo:  “Tata Anselmo agora se torna um ancestral de luz que vai emanar boas energias para as pessoas da religião”, disse Fernando Campo, o taata ndenge (pai pequeno), o segundo na hierarquia.

Religiosos de diversas nações, segmentos com língua e liturgia próprias do candomblé, e de outras religiões como a católica e até mesmo ateus, acadêmicos e representantes do governo se uniram para acompanhar a despedida do taata Anselmo, em sinal de admiração e respeito pelo sacerdote. O sepultamento aconteceu sob forte comoção e foi antecedido por homenagens feitas por pessoas da sociedade civil ligadas ao líder religioso do Mokambo, com depoimentos que ressaltaram a sua importância para a sociedade e para as religiões de matriz africana.

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“Foi um momento de tristeza, mas com uma mistura de satisfação por confirmar, a partir da presença das pessoas, que ele era muito querido e respeitado”, declarou Fernando Campo. O taata ndenge ainda disse que outros rituais serão realizados quando a morte de Anselmo completar sete dias, um mês e um ano.

Representantes dos principais terreiros de candomblé de Salvador participaram da cerimônia, como o babalorixá do terreiro Ilê Obá L’okê (de nação ketu), Vilson Caetano, que também é antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“Ele se destacou pela sua capacidade de representar todas as nações do candomblé e não apenas a nação angola, na qual foi consagrado”, disse Vilson Caetano.

Na interpretação do candomblé, morrer significa passar para outra dimensão e permanecer junto com os outros ancestrais. Ou seja, a morte não significa a extinção total ou aniquilamento, mas uma mudança de estado e de plano de existência. Segundo a crença, taata Anselmo passará por um processo de transformação em ancestral. Para que isso aconteça, é essencial que o corpo seja enterrado e não cremado ou sepultado em gaveta.

Para Vilson Caetano, mesmo que para o candomblé a morte não signifique o fim, a partida é dolorosa. Ele ressaltou algumas características de taata Anselmo durante sua passagem pela terra. “Era um homem que tinha coragem, ele não recuava, até mesmo em assuntos que são caros para nós, povo de terreiro, ele enfrentava. Além disso, taata Anselmo tinha gratuidade, ou seja, ele sempre estava disponível quando convocado para falar sobre nós”, lembrou.

A luta pelo candomblé fazia parte da essência do líder do terreiro Mokambo, que se cobrava constantemente, sempre em busca da sua melhor versão. Mesmo sem saber, deixou um recado aos que ficam:

“A morte tem esse poder de mexer com sua visão de mundo e, automaticamente, você procura diversas formas de se melhorar enquanto pessoa, pois seu tempo chegará e, afinal, o que você deveria ter feito que não fez?”, escreveu taata Anselmo no portal multimídia do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), em 2012, sobre a morte da ebomi Cidália de Iroko, que integrava o terreiro da Casa Branca.

Quem destacou o legado de taata Anselmo e fez questão de estar presente na cerimônia foi Soraya Mesquita. Além de amiga pessoal há mais de 30 anos, a cineasta é uma das responsáveis pelo roteiro do documentário “Mokambo: força da tradição Bantu”, que fala sobre a importância do terreiro Mokambo e da história da nação banto no Brasil.

“Em 2016, ele me disse que faria 40 anos de santo. Aí, eu tive a ideia de fazer um vídeo em homenagem a ele. Mas, ele disse que não queria ser exaltado, que preferia que eu fizesse um material sobre a cultura banto no Brasil. Quando eu tomei conhecimento de tudo, transformei a ideia num filme porque o material era muito rico”, conta Soraya.

Ela também descreveu como era o amigo no âmbito pessoal. “Ele era uma pessoa que, se precisasse tirar a roupa do corpo para dar para quem não tinha, ele fazia. Ele dava assistência a todo o povo da comunidade no entorno do terreiro, recebia a todos. Esse coração grande ele sempre teve, a vida inteira ele viveu para ajudar as pessoas, a missão dele era essa e ele cumpriu muito bem”, acrescentou.

Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), também fez elogios ao companheiro de religião, que conheceu há 16 anos.

“Ele era um dos grandes entusiastas da AFA. A gente sempre se encontrava, ele me dava conselhos e me tratava com muito carinho. Sempre agregava e sempre com carinho, um falar suave e doce com as pessoas, ele jamais levantou a voz para alguém. Era um sacerdote que estabelecia relações de pai e filho mesmo”, lembrou.

Como manda a tradição, o terreiro Mokambo ficará fechado em luto, apenas com rituais de manutenção, por um ano. Após esse período, será feito um jogo de búzios para que seja respondido quem dos filhos da casa ou de fora assumirá o posto de sacerdote ou sacerdotisa da casa. Uma missa em memória de taata Anselmo será celebrada neste sábado (4) na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. O horário ainda não foi confirmado.

O taata Anselmo José da Gama Santos faleceu no domingo (28), aos 66 anos, por conta de problemas respiratórios causados por uma pneumonia. Ele estava internado no Hospital Menandro de Faria, em Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (RMS), há 15 dias.

Nascido no Rio de Janeiro, foi na Bahia que o taata desenvolveu grande parte da sua vida profissional e religiosa. Ele foi o fundador do terreiro Mokambo, na Vila Dois de Julho, e também da Associação Beneficente Pena Dourada, em 1993, para atender aos moradores em estado de vulnerabilidade social da Vila Dois de Julho e adjacências. Em 2005, recebeu o título de Cidadão Baiano da Assembleia Legislativa da Bahia, ganhando destaque pelo importante trabalho no combate à intolerância religiosa e também na inclusão dos menos favorecidos.

Ele se formou em Secretariado Executivo pela Universidade Católica do Salvador (UCSal) e concluiu um mestrado em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Sua tese de doutorado estava pronta e, segundo amigos, estava prevista para ser defendida entre dezembro deste ano e janeiro de 2022.

Taata Anselmo e a cineasta Soraya Mesquita, por conta do filme “Mokambo: a força da tradição Bantu”, tinham recebido também o convite da Escola Imperadores do Sul, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para o Carnaval de 2022.

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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