Decisão de excluir Washington do encontro “Democracia Sempre”, em Nova York, amplia tensão entre Brasil e Estados Unidos
BRASÍLIA/NOVA YORK – O governo brasileiro decidiu excluir oficialmente os Estados Unidos da segunda edição da reunião “Democracia Sempre”, marcada para a próxima quarta-feira (24), às margens da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York. A decisão ocorre em meio a um dos momentos mais delicados das relações diplomáticas entre os dois países nos últimos anos.
A cúpula, que reunirá cerca de 30 países, é organizada por Brasil, Espanha, Uruguai, Colômbia e Chile, e tem como foco o fortalecimento da democracia, o combate à desigualdade e à desinformação. Entre os países convidados estão Alemanha, França, México, Canadá, Noruega, Quênia e Timor Leste. Os Estados Unidos, no entanto, foram deixados de fora — ao contrário do ano passado, quando participaram com um representante de baixo escalão do Departamento de Estado.
Um alto funcionário do governo brasileiro afirmou, sob condição de anonimato, que “não há condições para a participação de um país que teve uma virada extremista e cujo governo está questionando a democracia e as eleições brasileiras”.
A decisão do Itamaraty é vista como uma resposta direta à postura do presidente americano Donald Trump, que voltou ao poder este ano e tem adotado medidas polêmicas, como o perdão a mais de 1.500 envolvidos nos ataques ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Entre outras ações, Trump revogou diretrizes de combate à desinformação, classificando-as como censura, e tem pressionado empresas e personalidades que criticam vozes conservadoras.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a exclusão dos EUA da reunião é um gesto político simbólico, mas com possíveis consequências práticas. Washington ainda é um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, e o novo governo americano já sinalizou disposição para impor tarifas ou barreiras a países que considera hostis.
“A decisão do Brasil tem forte peso simbólico, mas pode ser lida como confrontação direta por parte do governo Trump. Isso tem potencial de prejudicar o comércio, acordos bilaterais e a cooperação em áreas estratégicas”, avalia a cientista política Mariana Nunes, da UFRJ.
A reunião “Democracia Sempre” é uma iniciativa liderada por países que buscam formar uma frente progressista em defesa de instituições democráticas, em contraste com o que consideram uma onda autoritária global. A primeira edição foi realizada em 2024, também paralelamente à Assembleia da ONU, e contou com o apoio dos então presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Pedro Sánchez.
Este ano, Lula participou de um encontro preparatório no Chile, em julho, onde foi divulgado um comunicado conjunto em defesa do multilateralismo e do combate às “causas estruturais que solapam as instituições democráticas”.
Enquanto fortalece alianças com países europeus e latino-americanos progressistas, o Brasil pode estar se afastando de potências com posições divergentes. A exclusão dos EUA pode reforçar a imagem do país como um defensor firme da democracia, mas também pode complicar sua política externa em outras frentes.
“O Brasil corre o risco de ser visto como seletivo em sua diplomacia, o que pode enfraquecer sua posição em fóruns multilaterais que exigem equilíbrio e pragmatismo”, diz o analista internacional Paulo Moreira Leite.
Com a cúpula marcada para o dia 24, resta saber como os Estados Unidos reagirão oficialmente à exclusão. A embaixada americana no Brasil ainda não se pronunciou. O evento será acompanhado de perto por analistas internacionais e poderá servir como termômetro para a nova configuração das alianças políticas globais nos próximos anos.















