A cada 15 minutos nasce um bebê de uma mãe adolescente na Bahia

Aos 14 anos, enquanto os colegas da mesma idade se preparavam para o ensino médio, Ana* teve a adolescência interrompida com as responsabilidades impostas por uma gravidez indesejada. A menina franzina nascida e criada em um bairro popular da abafada Feira de Santana, no interior da Bahia, foi vítima de violência psicológica e sexual desde os 13 pelo namorado de 24, neto da vizinha. A relação, que até então era mantida em segredo, foi descoberta pela família a partir do ventre aparente de uma gestação de seis meses.

Ana, que teve nome modificado em respeito à sua privacidade, não está sozinha. Como ela existem muitas crianças e adolescentes que fazem parte da estatística que mostra que na última década nasceram 113 bebês por dia na Bahia de mães com idades entre 10 e 19 anos.

Entre 2010 e 2019 chegaram ao mundo 413.167 bebês baianos de mães adolescentes. Para compreender melhor o número, é possível fazer uma comparação: se todas essas crianças fossem organizadas em uma fila indiana respeitando a recomendação atual de um metro de distanciamento social, essa fila teria cerca de 413 km de extensão, sairia de Salvador e chegaria próximo a Itabuna, no sul do estado. 

Enquanto a média de nascidos vivos de mães com idade de 10 a 14 anos na Bahia é de seis por dia (leia mais aqui), entre as meninas de 15 aos 19 o índice é surpreendente: nasceu um bebê a cada 15 minutos nos últimos dez anos.

Entre esses bebês está a filha de Ana, que nasceu em 2012, ano em que os registros de nascidos vivos de mães adolescentes na Bahia começaram a cair depois de um pico no ano anterior. O número passou de 46.713 em 2011 para 33.645 no ano passado. Uma queda de 27%.  Em 2020, até agosto, já são  17.656. 

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Arte: Priscila Melo/Bahia Notícias

Não se contam nos dedos as dificuldades e tudo que a menina de Feira de Santana que se tornou mãe cedo demais teve que passar. Atualmente com 22 anos, ela fala sobre o choque com a responsabilidade e com o fato de, de repente, ter nos braços uma criança. “Eu vim saber o amor que uma mãe sente por uma filha uns três anos atrás. Porque antes eu não sabia. Quando falava isso com as pessoas elas se assustavam e perguntavam ‘como pode uma mãe não sentir um amor desses por uma filha?'”, lembra Ana. 

“Até que um dia eu vi uma reportagem no Fantástico que a mulher falou ‘eu amo minha filha, mas eu não amo ser mãe’, e era eu. Era a frase que eu tava precisando para minha vida. Era o que eu sentia. Eu amava minha filha, mas não amava ser mãe, até porque eu não estava preparada”, revela ela, que hoje olha para o passado e entende como lições tudo que viveu. Aprendizados que conta com a voz embargada na esperança de que sirva de lição e alerta para outras meninas.

Somente passados alguns anos e com sessões de psicoterapia Ana entendeu que era a vítima na história, e não a culpada como foi apontada por vizinhos e pela própria família. E passou a enxergar sob outro ângulo e entender os sentimentos em relação a tudo que viveu. 

Na casa de Ana educação sexual sempre foi um tabu. A criação rigorosa imposta pela mãe não permitia que o assunto viesse à tona.

“Era um namoro em que a gente só conversava, não se tocava. Eu tinha 13 e ele 24. Mas ele começou a me pressionar, a dizer que iria terminar porque podia namorar com uma menina que ele pudesse tocar e beijar… Eu estava apaixonada e então cedi, mas sentia muita dor, sempre”, contou. A compreensão de que se tratava de violência não só sexual, mas também psicológica, só veio depois de muito tempo.

O caso poderia ser enquadrado no artigo 217-A do Código Penal, que considera crime de estupro a relação sexual com menores de 14 anos, sob pena de reclusão de oito a 15 anos. O estupro contra vulnerável é aquele que tem como vítima pessoa com menos de 14 anos, que é considerada juridicamente incapaz para consentir relação sexual, que era o caso de Ana. Também conta como vulnerável a pessoa incapaz de oferecer resistência, independentemente de sua idade, como alguém que esteja sob efeito de drogas, enfermo ou ainda pessoa com deficiência.

Mas esse não foi o desfecho desta história. A menina guardou segredo e tudo veio à tona meses depois, com a gestação. A atitude da família foi exigir que ela fosse morar com o pai da criança. E assim ocorreu.

As violências não só seguiram, como aumentaram. “Eu tenho um sono pesado e acordava suja, ele se aproveitava de mim enquanto dormia”, lembra. Quando as agressões passaram a ser físicas, que ocorreram em três ocasiões, ela resolveu sair de casa e voltar a morar com a mãe, que tem sido o suporte dela desde então. E é com ela que Ana conta para ajudar financeiramente e cuidar da filha enquanto ela se dedica aos estudos no Bacharelado Interdisciplinas em Humanidades, da Universidade Federal da Bahia (Bahia). O pai da criança nunca mais apareceu. 

Apesar de toda ajuda, a relação de Ana com a mãe é marcada por mágoa. “A relação com a família depois que engravida tão nova muda completamente. Antes eu era a queridinha, paparicada, e depois minha mãe ficou com raiva, parece que ela não consegue mais olhar na minha cara. Ela me ama, me ajuda, eu sei, mas a relação com ela se tornou muito difícil desde então”, lamenta.

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